
"....Todos nós lamentamos o que está
a acontecer ao Porto que, do ponto de vista cultural, não
é nada. Uma lacuna que está a ser sistematicamente
camuflada através de coisas episódicas, com
alguma monumentalidade: o festival aéreo, as corridas
de automóveis, fogos de artificio…"
Mário
Cláudio in revista “Tripeiro”, Janeiro
de 2008
Tudo
começou em 19 de Dezembro de 1969, com a edição
de uma revista dedicada à divulgação
das músicas do nosso (des)contentamento, num tempo
de resistência e de cantos teimosos e militantes, que
ousaram desafiar o silêncio oficial, recusando barreiras
e mordaças em nome da dignidade e da liberdade. Nas
suas páginas a mundo da canção assumiu
a força da palavra, com naturais limitações,
mas sempre firme no desejo e vontade de contribuir para a
denúncia de tudo quanto compunha o quadro de mentira
e alienação cultural.
A
partir de Julho de 1985, já depois do 25 de Abril,
a revista MC deixou as bancas e passamos então à
organização, produção e divulgação
de concertos e festivais, numa dinâmica cultural sobretudo
ligada à cidade do Porto.
Durante
este período realizamos 8 Festivais de Jazz do Porto
(Paolo Conte, Dave Holland, Leroy Jones, Enrico Rava, Michel
Petrucciani, Tete Montoliu, Charles Lloyd, Daniel Humair,
Kenny Garrett, Antonio Hart, Brad Mehldau) e 17 edições
do Festival Intercéltico do Porto e muitas dezenas
de concertos, trazendo à Invicta nomes fundamentais
como Léo Ferre, Georges Moustaki, Astor Piazolla, Miles
Davis, Paco de Lucia, Egberto Gismonti, Atahualpa Yupanqui,
Nara Leão, Gal Costa, Gilberto Gil, Pablo Milanés,
B.B. King, Milton Nascimento, Herbie Hancock, Wayne Shorter,
Cesária Évora, entre tantos e tantos outros,
mas também os portugueses José Afonso, Sérgio
Godinho, Carlos Paredes, José Mário Branco,
Trovante, Maria João Pires, Rui Veloso, etc., etc.
FESTIVAL INTERCÉLTICO DO PORTO
A primeira edição aconteceu em Abril de 1986,
tendo passado pelas várias salas da cidade: Rivoli,
Coliseu, Cinema do Terço (que acaba de ser desmantelado),
Cinema Carlos Alberto e nos últimos anos no Cinema
Batalha.
Ao longo destas 17 edições a cidade recebeu
alguns dos nomes mais relevantes da chamada música
celta, entre os quais se destacam irlandeses como The Chieftains,
Dervish, Andy Irvine, Four Men and a Dog, Lunasa, Maddy Prior,
De Dannan, Fairport Convention, Patrick Street, Altan, Kíla
e Solas, mas também grupos de outras nacionalidades
como os portugueses Fausto, Brigada Vítor Jara, Júlio
Pereira, Amélia Muge, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa,
ou os galegos Emílio Cao, Na Lua, Luar na Lubre, Carlos
Nuñez, Berroguetto, La Musgaña, Xosé
Manuel Budiño, Mercedes Péon, Susana Seivane,
entre muitos outros, ou ainda Márta Sebestyen e os
Muzsikás, Värtinä, Gwendal, Kepa Junkera,
Alan Stivell, Skolvan, Garmarna, Celtas Cortos, Kornog e tantos
outros. Ao longo dos anos a elite da música folk/celta
visitou esta cidade do Porto, dando a conhecer o seu trabalho.
Em
17 de Setembro do ano passado demos início à
preparação daquela que seria a 18ª edição
do FIP e apresentamos, à estrutura camarária
para a Cultura e Desporto (Porto Lazer) um pedido de apoio
(€ 20.000) para um projecto especialmente dedicado à
Irlanda e que incluía, para além dos habituais
concertos, animação de rua na Praça da
Batalha e na Rua de Stª Catarina. Como a resposta tardava,
em 12 de Dezembro enviamos novo ofício à “Porto
Lazer”. Em 27 de Janeiro e uma vez que ainda não
tínhamos tido qualquer noticia, renovamos o nosso pedido
por email até que atingida a data limite, no inicio
de Março, e mantendo-se o silêncio por parte
da “Porto Lazer” fomos forçados a abandonar
o projecto, uma vez que a 18ª edição do
FIP estava agendada para os dias 17 e 18 de Abril, sendo que
num mês não é possível concretizar
um projecto desta envergadura.
“CAÇADORES
DE SUBSÍDIOS”
No
dia 4 do corrente mês, numa pequena nota, demos conta
à Comunicação Social desta situação,
o que provocou uma onda de interesse e curiosidade sobre o
futuro do Intercéltico, tendo sido contactados por
inúmeros jornalistas que nos questionaram sobre o que
se passava, aos quais relatamos a verdade e os factos, lamentando
a falta de respeito com que fomos tratados, uma vez que a
“Porto Lazer”, revelando um profundo desprezo
pelos cidadãos desta cidade, nem sequer se dignou responder
à correspondência que lhe foi enviada.
Toda esta movimentação teve eco nos diversos
media pelo que os responsáveis da Autarquia sentiram
necessidade de se justificar e não tendo quaisquer
argumentos honestos que pudessem apresentar, usaram da mais
baixa ignomínia, distribuindo um comunicado no qual
acusam os responsáveis pela organização
do FIP de “caçadores de subsídios”,
revelando assim a falta de ética e toda a mesquinhez
que tem caracterizado a sua actuação.
Todos
conhecemos o deserto cultural que a governação
autárquica destes últimos 8 anos trouxe à
nossa cidade, o qual contrasta flagrantemente com o incremento
de actividade que se verifica nas cidades vizinhas, transformando
o Porto numa coutada daqueles que sempre que ouvem falar de
cultura, seja música, teatro, dança ou artes
plásticas puxam logo da pistola e medem o interesse
das realizações pelo numero de votos que estas
lhes podem render, com vista à manutenção
dos lugares que tão ciosamente tentam manter, desprezando,
do alto da sua ignorância, os interesses dos cidadãos
e o desenvolvimento da cidade, assim se compreendendo o especial
empenho com que privilegiam eventos como as corridas de automóveis
da Boavista e os aviões no Douro, que lhes permitem
pavonearem-se nas televisões, mas que custam milhões
ao erário público, como acontece com as referidas
corridas da Boavista que custam aos contribuintes portugueses
3 milhões de euros.
A
nós não nos impressionam os fogos de artifício
e os megafones. Há 40 anos que alimentamos um projecto
e prosseguimos o nosso trabalho, com coerência e determinação
e não serão acusações mesquinhas
e falsas de quem despreza a cultura que nos vai fazer recuar
ou interromper a nossa luta.
Assim,
já em Abril apresentaremos, na Casa das Artes dos Arcos
de Valdevez, as “Noites Intercélticas”
e em Maio vamos trazer a Portugal, um dos grandes cantautores
de Espanha – PATXI ANDIÓN – que vai realizar
uma série de quatro concertos: Figueira da Foz, dia
13. Lisboa, dia 14. Porto (Casa da Música) dia 15 e
no Teatro Municipal da Guarda a 16 de Maio.
Esperamos que o próximo Outono traga ventos de mudança
aos destinos desta cidade e que finalmente seja possível
inverter o rumo e iniciar a recuperação do tempo
perdido nestes anos sombrios de estagnação.
|